wondermarx

 
             

   
 
 

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

 
madame bovary c'est moi*
ele não conseguia dormir mais uma vez. ficou olhando para o teto sentindo-se sufocado pelo calor e pelas paredes por o q pareciam horas. na realidade estava deitado fazia minutos. mas naqueles minutos infindáveis buscou calar seus pensamentos. nada. não havia como cala-los. pensava diversas coisas ao mesmo tempo e não conseguia dar uma sequência lógica a nada. e isso era o mais pertubardor. estava buscando lógica, buscando uma explicação para aquele estado permanente de descontentamento. exausto decidiu pensar em sexo. era assim q ele fazia para calar a ansiedade, a preocupação e o desespero. fantasiou qualquer excitação e na sua insatisfação seu desejo pelo mais sujo, mais sombrio e degradante encontrou amparo. masturbou-se furiosamente naquela noite. fez isso seguidamente. e todas as vezes q alcançou o gozo sentiu seu corpo retrair-se, como se no instante do alívio o corpo se recusasse a ceder ao prazer. estava encurralado num eterno estado pré gozo. mas não aquele estado de delirio antes de gozar. não, não tinha esta sorte. estava preso na angústia do gozar, como se o gozo foi o objetivo e não o resultado do prazer. estava preocupado com o desempenho, com o jorrar, com o volume, com a possibilidade de se provar. por fim, depois de tantas tentativas, exausto brochou. sentiu-se miserável. o dia já estava para nascer e ele exausto e angustiado segurava o membro flácido e dolorido na mão. estava totalmente impotente para a vida. e encontrava uma explicação lógica e castradora para isso. de tanto pensar buscou o sexo. de tanto buscar o sexo se rendeu ao pensamento. o dia nasceu, aparentemente sem nenhum sentido. ele assistiu o rastro de luz q escapava da janela ir invadindo o quarto, correndo pela chão até atingir em cheio os seus olhos. sentiu arder no rosto a resignação de que mais um dia sem sentido estava começando. quis morrer. mas impedido pela lógica que procurava encontrar até na fantasia suicida, desistiu. levantou-se, tomou um banho, lavou insistentemente a mão e o pau procurando tirar aquele cheiro da fricção molhada da noite mal gozada. entrou no elevador decidido a mudar. a deixar as fantasias para trás. queria entregar-se a vida, as loucuras que imaginava, a aquele desejo flácido e impotente que havia se rendido. buscou corpos no caminho para o trabalho, desejou tudo que viu pelo caminho. mas logo sentiu-se cansado. mais uma vez impotente. ficou com medo de não desempenhar de tão cansado q estava. por fim desistiu. voltou a pensar, a tentar entender tudo novamente. e assim mais um dia passou, assim como vários outros. deixou passar uma existência insatisfatória com fantasias de uma vida q nem vida era. era só tédio.

*"madame bovary, sou eu", esta famosa frase de gustave flaubert foi a abertura de sua defesa no processo movido pela justiça contra seu livro "madame bovary". no livro a personagem principal vive uma vida entediante no campo, casada com um entediante médico. para dar sentido a sua vida emma bovary fantasia romances que acabam por se concretizar em tragédia. flaubert, acusado de influenciar jovens esposas ao adultério, usou esta frase para dizer q na realidade aquelas eram as suas fantasias, q na realidade madame bovary é qualquer um. alguns outros estudiosos acreditam tb que nessa frase flaubert _ q era um sifilítico e epilético misantropo dado a fantasias platônicas _ admite sua infelicidade e solidão.
wondermarx - 4:54 PM

fala aí:

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

 
meu destino é pecar *
suzana foi até a janela. seu coração saltava de tanta antecipação. o beijo que roberto havia a deixado sem chão. não fora só pelo beijo em si, mas violência do beijo roubado havia lhe deixado emocionada. enquanto ela olhava pela janela suas próprias palavras, sua própria narrativa ocupava sua cabeça. sentia-se confusa, cheia de medos e fantasias. nunca havia se sentido assim. e qto mais estes pensamentos povoavam sua cabeça mas a narrativa literária e irritante deles a perseguia. desejou desligar a cabeça de vez. desejou perder a cabeça de fato. estava ficando louca, dizia para si mesmo. e ao dizer isso para si mesma narrava ao mesmo tempo este diálogo em sua cabeça. era como se existissem duas instâncias diferentes em sua mente. uma efetivamente pensando e outra narrando o que fora pensado. ela se jogou na cama e enfiou a cabeça no travesseiro disposta a afogar um choro que não veio. estava demais alerta e excitada para chorar. e ao realizar isso descreveu para si mesma essa sensação. seu corpo parecia responder a todos os estímulos. o roupa parecia sufoca-la. num ímpeto despiu-se. não acreditava no que estava a fazer. deixou sua mão buscar o sexo e fechando os olhos entregou-se. subitamente os pensamentos cessaram. mesmo a narrativa parecia diminuir o volume. enquanto seus dedos passeavem por sua intmidade imagens incoerentes ocupavam seus pensamentos. finalmente estava em silêncio. um silêncio interno movido por um turbilhão de emoções até então desconhecidas. entregava para si mesmo como nunca havia imaginado entregar-se a homem nenhum. não era mais suzana. era outra. criara para si mesma um avatar, uma fantasia erótica intensa. quis até batiza-la. assim suzana criou helena. helena que era bela e fogosa. helena que disponha de todos os predicados que suzana não tinha. helena que não tinha nenhum dos pudores de suzana. durante aquele momento que pareceu eterno e definitivo para suzana helena criou forma e desejo. qdo finalmente atingiu o clímax helena se desfez no ar, num suspiro profundo, num torpor. suzana estava de volta. agora mais angustiada do que nunca. e movida pela culpa e pela vergonha tratou de imediatamente esquecer tudo que havia acontecido. voltou a sua narrativa interna, ao seu diálogo em bidimensional e trancou helena num lugar de onde ela nunca mais sairia. pelo menos talvez até mais tarde, qdo todos já estivessem dormindo.

* sob o pseudônimo de suzana flag nelson rodrigues publicou "meu destino é pecar" em 1944. primeiramente publicado em formato de capítulos no "o jornal" ajudou a alavancar as vendas deste. em seguida nelson escreveu, agora sem pseudônimo, a peça "album de família".
wondermarx - 11:48 AM

fala aí:

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

 
one*
One is the loneliest number
That you'll ever do
Two can be as bad as one
It's the loneliest number since the number one

No is the saddest experience
You'll ever know
Yes, it's the saddest experience
You'll ever know
Because one is the loneliest number
That'll you'll ever do
One is the loneliest number
That you'll ever know

It's just no good anymore
Since you went away
Now I spend my time
Just making rhymes
Of Yesterday

Because one is the loneliest number
That you'll ever do
One is the loneliest number
That you'll ever know

One is the loneliest number
One is the loneliest number
One is the loneliest number
That you'll ever do
One is the loneliest number
Much much worse than two
One is a number divided by two

*música e letra de aimee mann, parte da trilha sonora do filme "magnolia" de p.t. anderson

wondermarx - 9:33 AM

fala aí:

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

 
itrip*
ela disse eu. ela disse eu num sei qtas vezes, milhares, milhões. e nada do q ela dizia era verdade. ou quase. era tudo uma ilusão. era tudo q ela podia fazer para crescer alguns centímetros na sua auto estima nanica. pois bem, ela continuou dizendo eu. e os outros a volta tb. e foram tantos "eus" q o céu parecia até nublar e o vento parar. eles _ logo havia um coro junto ao dela _ dizem "eu", e eu q naquele momento queria ser outro e em outro lugar estar sentia ganas de me matar. foquei os olhos no horizonte e de nada adiantou. as vozes persistiam. e o relato egoíco subia o tom. quase nada de real, de fato, de verídico sobrava ali. mas nada podia dete-los. eles tinham mto pouco e desse pouco mto tinham q fazer. e se tem uma coisa q me deixa louco é a a falta de verificacão de alguma coisa. essa coisa maluca de ego trip q conta vantagem como se assim pudessem torcer a realidade tornar a versão como fato. fico fora de mim com isso. e ali estava eu _ eu sim, pq afim de contas eu tb tenho um "eu" próprio q posso usar numa frase aqui ou acolá ... enfim, lá estava eu diante do teste dos meus nervos. sabia o q estava para acontecer em seguida. egos fragéis primeiro contam vantagem depois partem para debochar uns dos outros. aquela coisa de "brincadeira" onde a gente sob este pretexto fala o q vem na cabeça com o simples propósito de ficar por cima. lembra da pré adolescência? pois é, na vida adulta fica mega potencializada. respirei fundo mas já não conseguia mais deter aquele impulso destrutivo. aquele q a verve vem com força e sem controle falando tudo com um único objetivo: search and destroy. precisava sair dali o mais rápido possível. precisava sair dali antes q falasse o q pensava e criasse inimigos por toda parte. precisava sair dali antes q eles começassem a não entender nada do q eu estava falando. então corri . corri com a intenção de fazer calar aquelas vozes com todos aquele "eus" q agora entupiam meu cérebro. corri para a rua, para a calçada, para a cidade barulhenta. senti algum alívio. mas pouco, pq contaminado por este estado de espírito a única coisa q podia me fazer sossegar era o silêncio. aquele silêncio q só é possível qdo as paixões se calam no peito e o q resta é só a gente. pq nessas horas de silêncio, nessas horas em q contemplamos o nada e nos voltamos para dentro é a melhor hora para entrar em contato com o eu. pq o eu, afinal de contas, é um coisa mto íntima e pessoal, num é pra gente ficar exibindo por aí a torto e direito.

*o ipod foi a primeira revolução deste começo de milênio da mac_ agora tem o iphone. o itrip é um aparelhinho que plugado no ipod conecta o player via onda de rádio a uma sound system qualquer, do carro ou de casa, podendo usar as caixas de som deste. em suma, faz a viagem musical individual do ipod virar viagem coletiva.
 

.

HOME
&
ARCHIVES


*este blog não tem revisor * wondermarx@hotmail.com

0