el matador
cansei de matar pessoas. pensou isso e enfiou a pistola na gaveta. de agora em diante quero escrever livros, pintar quadros, completou. havia meses q ele achava a propria vida mto redundante. depois de tantas mortes já não havia a mesma intensidade, a mesma antecipação excitante. agora fazia tudo mecanicamente. nem olhava para a vítima depois. viro as costas e batendo os calcanhares vou embora, elaborou. mas q diabos significa bater os calcanhares? é, talvez eu não possa escrever. afinal nem sei o q significa as palavras q eu mesmo digo. não tenho a menor idéia do q aquela frase q diz da nossa vã filosofia quer dizer. abriu a gaveta e pegou a pistola de novo. por um longo momento contemplou as formas, o metal polido e bem cuidado, a forma fálica _ isso ele sabia o significado_ e potente. talvez pudesse escrever sobre isso. sobre matar, concluiu. e continuou: ou posso pintar sobre isso. posso fazer lindos quadros abstratos, cheios de machas e respingos. posso dizer q e o sangue espirrando do corpo de alguém. as manchas maiores as vísceras. ficou maravilhado consigo mesmo. era tudo tão simples e fácil. e aqueles quadros eram mesmo incompreensíveis. qdo ele matou o famoso marchand - agora sabia o q significava a palavra_ ele ficou um tempo observando os quadros nas paredes. tudo cheio de formas esquisitas, cores, pontos, volumes. era bonito até, ponderou para si mesmo. segurou mais firme a arma e pra se concentrar mais esticou o braço e fingiu apontar para alguém. imaginou o quadro q iria fazer e como ia ser cheio de significados. ficou tão encantado q sentiu o pau endurecer um pouco. apertou os olhos e mirou para fora da janela. o tesão aumentou. pensou na facilidade daquilo tudo. como ia ser diferente e simples. pensou nas tintas q iria comprar, nas dicas q ia pedir pro homem da loja de tintas. imaginou os pincéis espalhados pela casa e as tontas q iria impressionar. um vidão esses pintores levam, concluiu balançando a cabeça pra cima e pra baixo. e olha q a maioria deve ser boiola q nem o marchand. riu sozinho e apertou a pistola com mais forca. e foi naquele momento q algo inesperado aconteceu. enquanto seu pau crescia dentro da calca e a mão sentia o metal umedecido pelo suor pela primeira vez ele atirou sem ser por encomenda. simplesmente apertou o gatilho e a bala disparou em direção ao alvo: um operário no prédio em construção na frente. num frissom continuou disparando. um, dois, três, oito, quinze. matou todos os 15 desgraçados cada um com um tirou certeiro. gozou feliz encharcando a cueca e a calça. pensou depois do clímax q nada supera isso. enquanto ia pegar uma toalha completou: e eu pensando em mudar de vida! deu com os ombros e foi pro banheiro rindo sozinho.
wondermarx - 11:03 PM
fala aí:
Segunda-feira, Julho 10, 2006
for no one
enquanto ele acendia o cigarro eu pensava que a vida era mais ou menos assim: eu e ele ali sozinhos. não havia sinal de que as coisas pudessem ser diferentes. fixei os olhos nas linhas de fumaça saindo do cigarro. imaginei um film noir. mas era tudo mto cru, nto real para ser estético. estavamos ali, parados diante um do outro. me senti mto só e com frio. ninguém de fato precisava de nós. ninguém iria sentir a ausência, o resto do mundo se completava, estavam todos em pares. e mesmo aqueles que estavam sós estavam melhor acompanhados que nós dois. tossi, assim como quem procura aliviar o silêncio. ele continuou olhando para o nada, ele continuou sozinho aonde eu não conseguia penetrar. não sei pq, acho que queria dar sentido aquilo tudo, me lembrei da música dos beatles. me lembrei dela pq ouvia todo dia fazia já quatro dias. ao me lembrar da música me veio uma série d imagens. me lembrei do amigo deprimido, da amiga q separou, do outro q não ligou. me lembrei de quase todos q passaram por mim estes dias. ninguém precisa de mim. e eu preciso desesperadamente de todo mundo agora. preciso que eles me queiram simplesmente pra que eu possa continuar isolado do mundo. pra q eu possa olhar para a fumaça do cigarro dele desenhando no ar imagens que nem eu compreendo. quis chorar, mas não achei apropriado. quis fugir, quis matar. lembrei do desprezo q sinto pela escritora afetada q ouvi ontem na tv dando entrevista e exagerando nas palavras. senti vergonha pela falta de pudor dela em falar como se escreve. e ela nem sabe q eu existo. ela e ninguém nesse exato momento. ele apagou o cigarro e eu agora não conseguia falar nada. estava tomado pela constatação d que por alguma razão desconhecida eu estava neste vácuo. acho q estou nele faz anos. anos em q tudo é tão real q acabou a chance de sonhar, de encantar, de fazer a vida um filme. fiz isso tão bem por tanto tempo. agora não consigo nem acreditar q fumaça do cigarro dele faz parte de um film noir. por um instante cruzamos o olhar. cruzamos o olhar ao mesmo tempo q ouvimos o trovão. sorrimos sem graça um pro outro. comentamos a mudança do tempo. a minha boca estava seca. pedi água e ele pediu a conta. disse q queria um café. não sei pq prolonguei aquele instante. o café podia demorar. não consegui imaginar nada pra dizer. ultimamente começo frases dizendo "não consegui". houve um tempo em q eu falava sem parar. devia ser melhor, já não sei mais. talvez fosse insuportável para os outros. mas q diferença faz. já sei há mto tempo q não se importam com o q eu digo. já sei faz tempo q a vida deles é mto mais interessante q a minha. estão todos fora do meu domínio. baixei os olhos e observei o copo de água. sempre peço uma água sem gás, mesmo q eu não beba. vi num filme um personagem q fazia igual. era um idiota. me reconheci, mas ainda assim continuo pedindo o copo de água sem gás, melhor se for san pellegrino, feito o idiota do filme. bebi a água e engoli o café q chegou rápido. agora, depois da conta paga, não restava nada nos prendendo ali. íamos embora. talvez juntos. eu e ele sozinhos no mundo. quis morrer. nào era nem meia noite. nem meia noite do dia q fazia dez anos da morte do meu pai. não falei nada. num ia fazer diferença mesmo. eu estava ainda mais só, talvez tão só qto ele q acendia outro cigarro e olhava para o céu. agora íamos para casa. íamos dormir, talvez antes uma simulação de sexo em q minhas mãos fariam as vezes da dele e vice-versa. íamos dormir em silêncio. ou melhor, ele dormia e eu ficaria olhando pro teto até o remédio fazer efeito. amanhã vamos ser um só de novo. amanhã é segunda e o trabalho exige concentração. amanhã vou ser ele e ele vai ser eu assim como somos todas as segundas. vamos acreditar q ninguém percebe. e talvez não percebam mesmo. amanhã eu vou precisar dele e ele de mim. amanhã vou ouvir a música dos beatles na voz do caetano enquanto dirijo pro trabalho.