cajuína
Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina
a cancão não explica pq existimos
tampouco a memória traduz pq deixamos de ser.
não que vc não continue sendo tudo que era ,
e mais agora que o significado fica amplificado pela ausência,
mas o fato indiscutível é que você não mais é.
ou melhor, não mais está.
e não estando parece ainda mais presente.
wondermarx - 11:57 AM
fala aí:
Quarta-feira, Maio 31, 2006
comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia, amigão
qdo chegou no amigão já era tarde. o saldo já atingia 4 dry martinis somente para mim. e isso era número modesto perto do ator do cinema brasileiro famoso nos anos 70. de gravata branca afrouxada sobre a camisa preta levemente amassada ele entornava jacks como quem bebe água enquanto dirigia a conversa. e essa corria solta e barulhenta. lembro de que não entendia nada do q ele falava e ainda assim replicava. devolvia a ironia fina e embriagada com arrobos juvenis. num era o mais jovem na mesa, mas ninguém sabia. e éramos assim: um gigante divertido, um jornalista em recuperação, um jovem garçon recebido ali como pupilo e um casal em busca de diversões sexuais. sim, uma improvável combinação. mas embuído pelo espírito setentista do deboche e da revolucão tomamos conta do reduto. a gargalhada do ator famoso que as pessoas teimavam em não reconhecer dominava o ambiente. e ele aos brados fazia citações ao cole porter. citações sofisticadas para o ator que foi famoso num tempo em que mesmo o melhor do cinema brasileira namorava a pornochanchada. é verdade que qdo ele soltou " bees do it... birds do it.." (da canção let's fall in love do porter) eu entendi beds abort, mas tudo bem, naquela altura ninguém se entendia mesmo. já era uma babel, ameaçando a mesa ao lado inclusive q fagocitados pelo ator e pelo marido do casal em busca de diversão á se pareciam bastante com a gente. um exemplo do processo de mimetizacão q o álcool geralmente produz: todos de bocas moles, olhares moles e riso frouxo. uma tristeza... e olha que ali era só alegria. somados a nós agora sim estávamos completos: um gay, uma lésbica e uma hétero. "e viva o circo!", alguém gritou uma hora. acho q foi o jornalista em recuperação. sei que ouvi falar no circo e do circo pro freak show é um pulo só. e eu em pé já recebia as pessoas do restaurante. confiante e dono do pedaço já perdia o equilíbrio mas num perdia a pose. precisávamos agregar elementos para nosso grupo. o álcool logo evapora com a animação q ou vira bode ou descamba pra agressão. e pelo olhar do ator famoso eu apostava na segunda. me acomodei na mesa ao lado e num súbido de consciência ( e vertigem) realizei que era melhor ir embora dali. a parte pior da noite tinha que ser reservada para um lugar com menos luz, mais gente e poucas testemunhas. para os agregados era o estímulo que precisavam. minutos depois nosso grupo desagregava do resto: o casal decidiu se divertir a dois mesmo, o pupilo saiu a francesa e o jornalista em recuperação levou o ator famoso embora. qdo ele saía pela porta lateral eu de repente percebi pq ninguém reconhecia mais ele. o rei do deboche, o ator viril de clássicos eróticos com vera fischer e sonia braga hj estranhamente se parecia com o papai noel.
wondermarx - 4:46 PM
fala aí:
talvez amanhã eu ache o caminho para casa
eu te falei q vc se enganou a meu respeito. falei que sou tão confuso e cheio de preconceitos qto vc. falei tudo até meu peito murchar. falei tudo até precisar buscar por ar. contei como me sinto qdo sem querer faço o papel q vc espera de mim. como se sem querer me livrasse da consciência de me fazer de bobo. de ser alegre , irônico e sarcástico como vc espera de mim. falei alto pra vc, falei tudo naquela hora. soletrei q só sendo este esteriótipo de gente vc me deixa sentar a sua mesa. falei com a boca cheia do desprezo que sinto por mim qdo faço conta que não desprezo gente como eu. deixei sair de mim tudo aquilo de pior que vc sempre espera de mim qdo me convida pra jantar. qdo eu alegro a conversa, qdo eu falo o q vc num tem coragem de dizer só pra vc em seguida enrubescer. deixei claro q não sensível, não sou sofisticado, q não entendo nada de nada. despi vc de todas as razões que fazem vc me aceitar no seu grupo. joguei fora todas as qualidades que vc me enfeitou para me eu animar a sua festa. cuspi nos seus preconceitos que são iguais aos meus, se não forem menores. sou mto pior que vc. sou mto mais hiprócrita, mto mais cínico q vc. sei o q dizem de mim, o q pensam de mim. e mesmo tendo vergonha continuo. falei tudo isso pra vc enquanto engasgava de choro. nunca me senti tão despido, tão exposto e tão covarde. me vi preto, judeu, viado, japonês, canhoto, nordestino, árabe, gordo, aleijado e filho da puta. me vi tudo aquilo q vc não suporta no mundo. tudo aquilo q do alto da minha ironia eu não suporto tb. me vi fazendo graça para a corte só pra q vc me aceite na sua mesa. me vi cruel e insignificante por querer fazer parte de tão seleto grupo. falei tudo isso com os olhos enquanto me sentava a sua mesa e pegava nos seus talheres finos. falei tudo isso enquanto engolia sua comida. falei tudo isso enquanto me via de relance refletido na prataria. falei tudo enquanto deixava meus lábios impressos nos seus guardanapos de linho. falei tudo isso enquanto sorria. como esperadofalei tudo com ironia.