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Quinta-feira, Março 23, 2006

 
viva a sociedade alternativa*
no final dos anos 80 evento bacana tinha que ter performance. e evento bacana acontecia fora do eixo dos jardins. barra funda e bexiga estavam em alta. assim aconteceu de abrirem o ácido plástico, uma improvável balada numa igreja desativada ao lado do carandiru. inauguração badalada com todas as figurinhas de então. no centro dos acontecimentos uma perfomance com a sandra, uma garota descolada da noite _ hj socialite em paris_ que era a cara do boy george e namorava um outro descolado que era a cara do george michael. improvável combinação eu sei, mas lembre-se q estamos nos anos 80, uma época em que roxo combinava com laranja e de baladas em igrejas ao lado do carandiru... ao som de yoko ono, naquela música que ela gritava feito louca (!!!) simulando um orgasmo, a descolada se movia pelo altar/palco com os peitos de fora. no auge da performance ela pega um quadrado de vidro transparente e apertava os seios contra ele. na ponta dos seios dois ovos estratégicamante colocados. yoko gozava alto nos autofalantes enquanto os ovos esmagados no vidro explodiam em branco e amarelo. um extâse. a platéia delirou. corta, acelera alguns anos pra frente: guto lacaz _o avô da performance_ em exibição no exíguo palco do crowne plaza. para terminar seu pocket show ele apresentrava uma mesa com um mecanismo que deixava apontada para o público dezenas daqueles revolverzinhos de brinquedo que atiram uma seta com uma ventosa na ponta. qdo começava o refrão com raul seixas cantando "viva a sociedade alternativa" a traquitana disparava sua ironia direto para o público. outro extâse.

* "viva a sociedade alternativa" , hit de raul seixas tinha como parceiro de composição o "mag"o paulo coelho
wondermarx - 12:11 PM

fala aí:

Segunda-feira, Março 20, 2006

 
morrer um pouco
hj faz 6 meses que vc morreu. vc nem vai acreditar, mas de fato mta coisa aconteceu. inesperadamente mta coisa boa. acho q deve ser por causa de algum sistema de compensação da vida... mas assim mesmo as coisas ficaram mto difíceis. eu num me conheço sem vc. e nem é por que eu preciso de seus conselhos o tempo todo, é mais pq eu me inventei a partir de vc. usei a sua voz, os seus gestos, os seus interesses, usei tudo q eu tinha a disposição _ até a sua distância_ como base pra me inventar. imaginei alguém q na realidade só existia qdo comparado a vc, imaginei alguém q vc aprovaria. tudo isso pra depois me revoltar e tentar ser alguém q num fosse vc. acabei sem vc e sem a mim mesmo. não tem sido fácil, tem vezes q tenho vontade de pedir licença e como uma amigo meu faz , dizer: da licença que eu vou até ali morrer um pouco. morro um pouqunho por dia. morro no carro qdo ouço música e lembro de vc, morro qdo desvio os olhos pra não olhar pra sua foto na parede, morro qdo falo seu nome, morro qdo vejo minha mãe e meu irmão. mas apesar disso eu vivo. vivo todos os minutos. e tb vivo todos esses minutos em vc, pensando em como vou ser de agora em diante. existem inúmeras escolhas, de um certa forma posso ser quem eu quiser agora q não tenho vc pra me espelhar. mas num é bem assim, pq em todos aqueles outros momentos em q eu não estou morrendo, vc continua bem vivo na minha cabeça. agora mais vivo ainda pq na minha cabeça não preciso dividi-lo com ninguém. e na minha cabeça tb vc pode dizer o q quiser. e esse diálogo interno parece infinito. infinito e constante. a única coisa q não mudou é q vc nunca me diz exatamente o q eu gostaria de ouvir... não tem problema, agora eu tenho mesmo é q me reinventar e continuar vivendo. sinto saudades de vc.

wondermarx - 4:40 PM
fala aí:

 
forgive them father
Beware the false motives of others
Be careful of those who pretend to be brothers
And you never suppose it's those who are closest to you, to you
They say all the right things to gain their position
Then use your kindness as their ammunition
To shoot you down in the name of ambition, they do

já era mais tarde do q o esperado. era mto tarde para mim, não devo passar desta noite. o sol estava para sumir. manobrei o carro com dificuldade, parte das minhas costas e ombro já estavam adormecidos. praticamente não sentia dor, praticamente não sentia nada. respirei fundo inadvertidamente e um dor lancinante queimou minhas costas entrando pelo meu corpo e fuzilando meu pulmão. era um aviso de que eu ainda vivia. nesse estágio a confirmacão da vida é a dor, concluí. parei na beira do abismo. olhei pra baixo, mas o sol se punha e jogava uma sombra densa e indefinida sobre o penhasco. por um vale sombrio minha mente passeia. lembrei do amigo q havia dito isso pra mim. não é a minha mente, é a minha alma mesmo, corrigi. voltei meu rosto em direção ao carro. ali, com a porta traseira entreaberta eu entrevia seu corpo sem vida. parecia menor agora. menor, quase sem corpo mas mais pesado ainda, carreguei sua carcaça até a beirada e contemplei seu futuro. o seu e o meu, pensei. em breve nos encontraríamos naquele vale. ri, ri de cansado e bobo. ri sem rir, só jogando os ombros com desdém. senti dor. parei na beirada e como se fosse um gesto automático simplesmente baixei os braços, como se estivesse liberando a responsabilidade do seu peso. vc pareceu flutuar no ar um segundo, depois caiu feito desenho animado. do rádio do carro dava pra escutar: "forgive them father for they know not what they do". ri de verdade desta vez. ri da ironia, ri com força até a dor ficar insuportável, virar um grito esganiçado, espancar o vale no seu eco, e mover meu corpo pra frente uma vez mais. me calei e caí. caí com os olhos abertos, pelo menos até onde eu aguentei. depois disso foi só escuridão.
 

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