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Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

 
o jabor como testemunha
o jabor sentou-se no balcão do restaurante japonês acompanhado de um mulher de cabelos pretos e cara de intelectual. ela se levava a sério e ele quase no deboche. um deboche galanteador e respeitoso. um deboche q olha as curvas, aprecia o decote e imagina uma noite proveitosa. ela levava tudo mto mais a sério, a posição da mulher na sociedade e coisa e tal... eu do outro lado do balcão queria sumir. fiquei subitamente mto consciente. sentado ao lado de um mauricinho juvenil eu pensava em como havia ido parar lá e suspeitava q o jabor ouvia a conversa do meu lado do balcão. qdo o mauricinho atendeu o telefone eu quase engasguei. ali, do meu lado, frente a frente com o jabor ele contava pro amigo com voz estudadamente "máscula" q o pai havia oferecido um jantar digno de baco pra uma meia dúzia de políticos _citou todos os nomes. me vi na crônica do jornal da globo num relato ácido do jabor sobre mundo dos políticos corruptos e seus privilégios. justo eu, filho de comunista! quis sumir dali, mas confiei q o jabor estava mais interessado na mulher falante q se levava mais a sério do q no estagiário de mauricinho do meu lado. enfiei a cara no cubinho de saquê e rezei pro tempo correr enquanto contemplava os últimos anos da minha vida. como é q vim parar aqui, me perguntei em silêncio. assim q completei este pensamento o rapaz desligou o telefone, não sem antes falar q estava acompando de um mina (!!!), virou pra mim e confessou q ainda num havia decidido sua preferência sexual... aí eu engasguei. engasguei de riso e constrangimento. juro q o jabor ouviu o comentário. quer dizer, talvez ele não tenha ouvido, mas o sushiman ouviu. abriu bem seus olhos nordestinos e tenho quase certeza q cúmplice sussurou: nossa, q roubada o seu jantar, hein...? e q eu nem gosto de comida japonesa, devolvi pra ele com o olhar. o jabor certamente já havia se desinteressado do assunto. deve ter achado q o assunto agora num era para ele. mto mundano, pra outra demografia, coisa pra programa da penelope na mtv. foi aí q eu desgraçado me vi cair da audiência qualificada do jornal da globo pra lenga-lenga q dá menos de um ponto no ibope na mtv. uma tristeza. considerei a possibilidade de ir direto para as páginas do notícias populares. me vi pular o balcão e num lance kill bill sacar o facão do japonês e decepar a cabeça celerada do mauricinho. aproveitaria e arrancaria a cabeça do jabor, afinal nunca gostei mto dele mesmo. saí do transe qdo o mauricinho começou a falar de carros. a boca gulosa dividia um sushi com o novo bmw xyz, um olho no sushi e o outro no grandão q estava entrando acompanhado de uma loiraça cachorra. considerei a hipótese de fingir um ataque do coração. ou gritar, ter um surto. sair gritando porta afora. deixar o cara, o jabor, o grandão, a cachorra, a comida, a conta, o carro. deixar tudo para trás e sumir. corta, acelera a imagem, aperta o play e 3 dias depois eu sento no computador e escrevo tudo isso. tô com os pés doloridos, um joelho machucado _tropecei uma hora_ mas tudo bem. acho q corri 3 dias sem parar. corri sem pensar e não pensando pensei tudo. não me lembro mais como a noite terminou e nem como cheguei até aqui. esqueci o nome do mauricinho , o jabor anda meio sumido da tv esta semana e não costumo ler o notícias populares.
wondermarx - 4:44 PM

fala aí:

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

 
pânico e solidão a bordo de um navio
com aquele grito entalado acompanhado do olhar esbugalhado do quadro do munch eu pus o pé na rua. a cidade fervia feito um saara e eu num queria enfrentar o primeiro dia de trabalho. em momentos como esse me identifico com o personagem de o estrangeiro do camus... o calor...a arma... o estrangeiro... bem, deixa pra lá, num tinha mesmo nada disso por perto. exceto o calor. ajustei o ar-condicionado digital que na concessionária era tudo e no dia-a-dia é uma máquina que desesperadamente tenta manter 21º _ temperatura dos jatos da varig_ qdo o mundo lá fora arde perto dos 40º. a máquina se esforça loucamente e produz um barulho de fornalha enlouquecida. é, para esfriar aqui dentro tem que aquecer o motor lá fora, concluo. parei no estacionamento. longa caminhada sob o sol. pronto, cheguei no trampo e o sol de dois quarteirões desfizeram tudo o que o ar-condicionado digital tinha se esforaçado tanto. já percebeu que qdo o calor é forte as pessoas só comentam isso no elevador? pois é, qdo o calor supera esse estágio as pessoas num falam mais. elas ora emitem um grunhido ou dividem um olhar cúmplice de que espera na fila na boca do inferno. aí, na boca da boca eu já gritava pânico e solidão. paradinho na borda da caldeira do diabo contemplei a sala de trabalho. quanto entusiasmo... passei entre um colega desanimado e uma vaporosa coleguinha de ombrinho e perninha de fora pensei no paulo francis. pensei no melhor do mal humor. pensei no estrangeiro de novo e qdo cheguei na mesa já pensava no pânico. não o do ciro pessoa (ídolo de uma geração como eu proclamei outro dia qdo o conheci bravemente num boteco), mas o do zurita mesmo. aquele de domingo com a japonesa acéfala. pensei em como pode alguém ser tão burra _a japonesa_e ainda por cima fazer dinheiro com a própria burrice. me senti inteligente e pobre, pra em seguida concluir que de burra ela num deve ter nada e que eu é que sou burro e duro. pânico! pânico e solidão a bordo de um navio! eu ali, fervendo nessa nau sem rumo que gira, gira e não pára sem chegar a lugar nenhum nunca. senti a cabeça girar, corri até a janela, vi as nuvens se mexerem lentamente, acreditei ver a terra girar. mas num era a terra, meus olhos é que saíam da órbita da terra e numa espiral entraram lá dentro no fundo da minha cabeça. ouvi o coração estacando com força, o suor gelado refrescando a minha cabeça e aquela voz repetindo pânico, pânico, pânico... foi a última coisa que me lembro e a primeira que ouvi. pânico, disse o homem vestido de branco e impassível a minha frente. o senhor tem pânico, ele insistiu.
 

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