se eu falar bastante e sem parar, sera q vão acreditar?
vc senta num bar e alguem do outro lado da mesa euforico conta como esta bem, como foi divertido, como e bem sucedido, como tudo e maravilhoso. posto isso pede outra rodada de dry martinis. cada vez mais me sinto como se fosse somente uma testemunha ocular. qdo vejo estou ali, quase no centro ou meio de lado enquanto a vida alheia entretem. sempre encontro alguem q fala bastante e sem parar, e fazendo isso parece construir uma realidade alternativa mais interessante. se eu simplesmente disser q sou o rei da persia existe uma chance q alguem acredite? e se alguem acreditar por um bocadinho de tempo ja e o suficiente. fui o rei da persia por algumas horas. u-hu!! as vezes e como se a pessoa somente produzisse sons. ela abre a boca, eu percebo q saem sons de dentro. mas juro q nao entendo nada. outras vezes entendo todas as palavras, todas as entonaçoes, consigo ate ver as imagens das palavras, mas elas nao sao nada. cada vez mais me convenço d q basta falar mto, basta tentar impressionar, basta rechear cada gesto, cada comentario com uma intensão q nao a aparente e pronto, viramos aquilo q gostariamos q as pessoas pensassem q somos. enquanto exercitamos o dom de iludir e de contruir universos artificiais deixamos de ser e viramos apenas som.
wondermarx - 10:25 AM
fala aí:
Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
o estrangeiro
o sol estava assassino. parado no meio horizonte com o reflexo na agua ferindo com força os olhos. eu nem me mexia mais. fritava resignado embaixo do guarda-sol num torpor de começo de ano. ao meu lado um aglomerado de vozes femininas e folhas de revistas folheadas. mais adiante gargalhadas espasmodicas de um grupo querendo mto ser cool. o ano mal começava a na praia eu assistia um estudo antropologico misturada com "melhores" momentos de 2004. pensei no tsunami e desejei q uma onda gigantesca me levasse dali. poderia simplesmente me levantar, mas dai qual era a graça? fechei os olhos e foquei no barulho das ondas. fiz força pra me concentrar mas parte do meu cerebro ficava alerta pra ver se o celular tocava. maldito controle remoto, pensei. abri os olhos. o sol nao havia movido um milimetro sequer. logo ele sairia de tras da beirada do guarda-sol e estacionaria definitivamente entre ela e o horizonte. bem na minha cara. um soluçao imediata se fazia necessaria. teria q entrar na agua. imaginei o choque termico seguido do alivio. a onda indo e vindo. eu ja estava quase pronto, mais dois segundo me levantaria qdo elas me interpelaram. abri os olhos e duas me olhavam com os olhos bem arregalados. esperavam ansiosas por uma frase divertida. um comentario malvado qualquer. a outra ja estava de pe e servia uma esfiha para o quase namorado meio libanes q fitava o horizonte indiferente. tenho quase certeza q ele pensava a mesmo coisa q eu. resmunguei algo inaudivel e elas adoraram. riram alto jogando o cabelo para traz enquanto se entreolhavam divertidas. pronto, tinha acabado de conquistar meu direito ao silencio. agora vou me levantar, eu pensei. entretanto aquele pequeno esforço de interaçao havia me esgotado de novo. tinha q me concentrar mto outra vez. suspirei. desejei pelo tsunami novamente. senti o sol ameacado ir despontando por de traz da beirada do guarda-sol. entendi completamente o estrangeiro do camus. consegui entender o sol, o calor, o sol, o arabe, o sol, o calor, o arabe, a arma, o sol, o calor... nao havia mesmo outra soluçao. se tivesse uma arma ali eu atirava tb. nao sei bem em quem, mas saia atirando. depois entrava no mar pra limpar o alma. eu esboçava um sorriso aliviado imagindo a cena qdo ouvi uma delas peguntar: do q q vc ta rindo? abri os olhos e no primeiro plano vi a carinha divertida dela. no segundo plano ajustando o foco pude ver o conhecido alegre, queimadaço e diminuto se aproximando. agora eu estava frito. ia ter que interagir com os dois. e tinha o sol. nao havia saida. ele foi se aproximando sorridente e angustia foi se somando. ela insistia: do q q vc ta rindo? conta? o celular tocou na hora enquanto olhando em volta tudo q eu via era sangue.